Aniversário sem avó


Minha querida avó, hoje seria um dia de comemoração da tua vida...

Tinhas pele de farinha, olhos de mel, coração de guerreira, mãos de fada e cheirinho a alfazema.
Eras o meu biscoito mais doce! Ainda hoje te sinto o cheiro e o sabor...

Amavas-me sem condições, julgamentos ou condenações e até crenças tão díspares tínhamos...
Éramos cúmplices no olhar, no toque, no amar. Foi assim até ao último dia da tua vida.

Como sempre, assim que pudesse ia ligar-te. Atendias com um alegre e doce: "Aniiiita!".
Dizias meia dúzia de disparates que me fariam rir e, a ti, gargalhar com as minhas respostas.
Acabavas por ralhar-me, dizias para olhar pelo o meu marido... ajuuuuda-o Aniiita....  sem conseguir conter o divertimento... Adorava desconcertar-te! Era delicioso...
Ficaríamos à conversa sobre tudo e sobre nada, até nos despedirmos com beijinhos e com a promessa de um encontro em breve e, amanhã, lá falaríamos de novo, de tudo e de nada...

Quando nos juntávamos [e só para te divertir... vá, pronto, era mesmo para arreliar], pegava em ti ao colo e tu lá resmungavas com a desculpa dos ossos. Mas em resposta, quase imediata, lá davas os teus famosos saltinhos de ginasta ainda ágil que eras. 
Fazias questão de mostrar, que ainda eras uma borboleta todas as manhãs.

(...)

Tivemos todo o tempo do mundo para nos despedirmos. Foram horas a fio de mãos dadas, a recordar momentos e pessoas, com olhares trocados, beijos, promessas de que estavas cada vez melhor, festas na cabeça, naquela cama de hospital. 

Mas o silêncio fazia-se sentir de forma cada vez mais dolorosa, como que a antecipar o inevitável e assustador dia 18 em que me despedi tão rápido, sem saber, de ti...

O tempo escasseava, ambas sabíamos...

Mesmo assim, senti que te arrancaram de mim...

Ainda havia tanto por dizer e tanta mimice para trocar...

Nem chegaste a ver crescer os teus bisnetos... que tanto amavas.

Mas eles, Vó, eles vão conhecendo-te a cada dia que passa - é que as tuas expressões, o teu afecto, as tuas histórias, a tua vida está cravada em mim!

Sei que estás comigo, connosco.

Sinto hoje, senti ontem, sentirei amanhã.

Mas há dias em que a tua falta é ainda mais dolorosa. Hoje é um desses dias...

Amo-te minha avó, beijinhos da tua Anita.
Dá um beijinho ao Tuta por nós.

Até amanhã, até sempre...

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